Suporte para os seios no balé volta ao centro do debate e mobiliza médicos, empresas e escolas

O uso de sutiãs esportivos por bailarinas está novamente em pauta. Embora a peça seja comum em outras modalidades atléticas, ainda é vista como exceção nas salas de ensaio de companhias e escolas de balé. Especialistas em saúde, professoras e marcas de vestuário mostram que a resistência ao suporte mamário tem implicações diretas sobre desempenho, bem-estar e inclusão dentro da modalidade.

Impacto fisiológico

A médica alemã Stephanie Potreck, especialista em medicina e nutrição da dança, lembra que o balé impõe movimentos mais intensos que muitos exercícios convencionais. Segundo ela, durante um simples polichinelo os seios podem se deslocar até 19 cm em várias direções. “Isso não se compara ao allegro feito nas aulas”, observa. A falta de sustentação provoca dor, alongamento irreversível dos tecidos e exige micro-ajustes corporais que consomem energia extra. Um estudo de 2022 com atletas universitárias revelou maior incidência de lesão de ligamento cruzado anterior em pessoas sem sutiã adequado.

Para a cofundadora da fabricante britânica de tops esportivos PEBE, Lucy Horsell, a ausência de suporte reduz o comprimento da passada, diminui a aceleração em até 7 % e tende a causar dores nas costas e no pescoço. “Com a sustentação correta, a bailarina sente mais força, menos fadiga e se recupera mais rápido”, diz.




Barreiras culturais

Apesar das evidências científicas, o balé ainda considera o sutiã um elemento “não profissional”. A freelancer nova-iorquina Alex Maureen Newkirk, também professora adjunta na Tisch School of the Arts (NYU), relata ter sido uma das poucas alunas que usavam top na faculdade. Certa vez, ouviu de um professor que a cor da peça “quebrava a linha” do corpo. Para ela, o comentário revela o racismo latente na estética da modalidade, lembrando que “meias-calças rosa em uma mulher negra também interrompem a linha”.

Grades rígidas de vestimenta — que exigem alças finas ou costas baixas — tornam o sutiã visível ou até proibido em alguns programas pré-profissionais, reforçando a percepção de que quem precisa de suporte não pertence a esse espaço.

Inovações no figurino

Ex-integrante do Miami City Ballet e do Los Angeles Ballet, Julia Cinquemani preferia costurar painéis de meia-calça dentro do collant para não chamar atenção. A insatisfação a levou a criar, em 2011, a marca Jule Dancewear, que combina tecidos compressivos e modelagem específica para oferecer sustentação sem comprometer a estética. Outras iniciativas surgiram, como a linha “We Got Boobs”, da Imperfect Pointes, e modelos com compressão da Cloud and Victory. Ainda assim, Cinquemani reconhece que a maioria dos collants “bonitos” não contempla todos os biotipos.

Imagem: Dr. Stephanie Potreck. Photo courtesy Potreck

Potreck recomenda que a bailarina busque alças reguláveis e apoio total nas costas, o que inviabiliza peças de decote profundo. Fita adesiva de uso médico é alternativa ocasional, mas pode irritar a pele. Já em cena, figurinos precisam ser ajustados individualmente para garantir segurança.

Passos para a mudança

A quebra do tabu passa por diálogo. Em março, a PEBE realizou oficina com o The Royal Ballet School, em Londres, oferecendo medições e sutiãs financiados pela própria escola. Quase todas as alunas compareceram. Desde então, a instituição permite que bailarinas ensaiem de camiseta sobre o collant. “A escola dedicar tempo a isso é louvável”, afirma Horsell, que encoraja outras entidades a abordar o tema.

Potreck lembra que insistir em padrões antigos equivale a adotar terapias médicas da década de 1960. Newkirk, agora professora, autoriza o uso de sutiã em suas aulas e conversa com responsáveis sempre que percebe queda de autoestima vinculada ao corpo. “Temos a chance de mudar o cenário; por que não fazê-lo?”, questiona.

Com informações de Dancespirit

Olá, queridas! Sou Yasmin Farida, apaixonada por dança do ventre. Aqui, compartilho dicas, tutoriais e inspirações para todas as idades, ajudando você a explorar e aprimorar sua jornada na dança com alegria e confiança!