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Homenageada

Mônica Lira

Mônica
Lira

Por Marília Rameh
Por ser cria de uma ilha, do arquipélago lá de fernando de noronha, e de ter aportado em outra ilha, no Recife, destinou-se a criar pontes de muitos tipos, formas, dimensões e tamanhos. no Recife dos casarios e sobrados, do centro da cidade com sua iluminação limitada, do cheiro forte do rio, dos moradores da rua, do mar que arrebenta nos arrecifes. Bem no centro do Recife, o encontro, a dança. Recife da Tomazina, da Lira, da Mônica. A Mônica Lira do grupo experimental.

Grupo que foi fundado em 1993 e há mais de duas décadas vem transformado os corpos urbanos da capital. A trajetória de Mônica Lira e do Grupo Experimental se confundem com a dinâmica cultural do Recife. A pulsação, a potência criativa e a capacidade de articular, de agregar, de somar, de estar junto. Assim tem sido nas diversas iniciativas e obras artísticas de sua autoria.

no início da década de 90, a realidade profissional da dança ainda residia apenas no ensino não formal, a manutenção financeira dos artis- tas advinha da atuação como professores, além de apresentações onde a maioria dos bailarinos não eram remunerados. nessa época, Mônica Lira dava aula de dança em diversas escolas e academias de Recife, Olinda e Paulista e como bailarina integrou a Cia. dos Homens.

A sua história se mistura com a geografia, com as tensões e vigor da cidade, traduzida na estética do Movimento Mangue em zambo, nos Postais do recife com a cidade como cenário ou no busão do Barro Macaxeira com seus arquétipos e usuários, a caminho do Breguetu a festa e os dilemas do contexto da periferia. Seja na profundidade do amor de lúmen ou no profano e no sagrado, reflexão sobre a crença e sincretismo, manifestações do divino através dos sentimentos de fé, esperança e resignação, a festa do Morro, Conceição.

no desejo de lançar novos olhares, de reconstruir e ressignificar a relação de pertencimento na prática conjunta em outras pontes, uma trilogia: Ilhados – construindo pontes, Compartilhados e Pontilhados. ilhados – construindo pontes, onde volta ao íntimo das suas origens, no encontro de duas gerações; Compartilhados, onde a tensão e inquietude das relações é exposta de maneira visceral em um lugar geograficamente delimitado, cerceado por regras e limites; e Pontilhados, que como poesia aos ouvidos nos coloca como espectadores de uma cidade caótica e ao mesmo tempo inspiradora. Aqui e acolá com seus espetáculos, percorreu várias cidades brasileiras e participou de turnês internacionais na América Latina (Peru, Equador, Bolívia, Chile, Argentina) e Europa (Espanha, Portugal e itália).

Muitos fazeres e saberes sobre convivência coletiva das mais diversas formas. nas ilhas, mas também nos contornos, nas franjas. foi justamente nessa ausência de espaço que junto com outros produtores independentes criou em 1995 o Festival de Dança do recife, evento que durante anos movimentou os criadores, grupos, bailarinos, todos os fazedores da dança, de todas as danças e que projetou o Recife no cenário nacional como polo de criação e diversidade - muitos grupos surgiram estimulados pelo festival. Num dado momento, a necessidade de rediscussão do formato do festival de Dança criou uma ambiência para que outras questões viessem à tona.

Nesse fluxo de movimentos, lutas de resistência pelo reconhecimento da dança como profissão, Mônica Lira participou, juntamente com outros artistas, da fundação do Movimento Dança recife, articulação da sociedade civil organizada em atuação há 12 anos, discutindo e mobilizando a dança da cidade em torno das políticas públicas. Dessa mobilização partiu a criação do curso de dança na Universidade federal de Pernambuco, bem como todos os avanços no fomento para a dança entre outras pautas.

Como produtora cultural independente, é uma fazedora de micropolíticas do cotidiano onde vai difundindo e pulverizando conhecimento e informação, essa dedicação constante fez dela idealizadora do núcleo de Formação em Dança. Em 2004 o Grupo Experimental teve a primeira experiência em desenvolver um trabalho em dança para jovens ligados às comunidades do Recife no próprio espaço do grupo, cujo os objetivos eram vivências de dança contemporânea, oficinas e atividades artísticas, além de ações de estímulo à cidadania e práticas de socialização.

A iniciativa bemsucedida trouxe a necessidade e o desafio de ampliar essa formação transpondo a fronteira do espaço físico para atuar in loco nas comunidades (ibura de Cima, UR-6, nova Descoberta, Brasília Teimosa, Pina, Boa Viagem, Arthur Lundgren, Várzea, Peixinhos, Ponte dos Carvalhos, Prazeres, imbiribeira, Jordão Alto, entre outros). O núcleo de Dança na Comunidade fortaleceu ainda mais a relação do grupo com a cidade para além do centro do Recife, levando em consideração o potencial encontrado entre os jovens das periferias. A partir daí a sua personalidade jurídica passou a ser Centro Mônica Lira de formação e Desenvolvimento em Dança.

Outra ação importante nessa história é o projeto reciclarte, que teve sua primeira edição em 2005, com o objetivo de realizar troca de conhecimento dos artistas locais com profissionais de várias localidades do Brasil, através de seminários teóricos e práticos. Dessa forma, a história dos dançantes do Recife tem de alguma maneira a interferência do Grupo Experimental e do espaço experimental – lugares que abarcam a rotina de ensaios, criações, parcerias ambientes de convivência e confluências, de encontro, de troca, de festa, mas também de reflexões profundas, além da geração de trabalho e renda. A partir da ação e da formação, um profundo desejo de transformação através do olhar da arte.

É tempo de celebrar o reconhecimento da relevância da sua atuação na cena local e a projeção da dança do Recife para o Brasil e para o mundo, o corpo como lugar de encontro e de acolhimento. A partir da dança, o privilégio de compartilhar essa existência com generosidade e disponibilidade de perceber e se doar ao outro.

A você Mônica Lira, nossa gratidão!

* MarílIa Rameh é pesquisadora, Especialista em Grestão e Produção Cultural, Diretora da CIA. de Dança Artefolia.